Ferreira de Castro amou Ossela

Na edição em papel do jornal A Voz de Azeméis de 19 de julho visitámos Ossela. Ferreira de Castro, a figura maior da freguesia,não poderia ficar esquecido. Conheça um pouco da história do autor de 'A Selva'.

Na edição em papel do jornal A Voz de Azeméis de 19 de julho visitámos Ossela. Ferreira de Castro, a figura maior da freguesia,não poderia ficar esquecido. Conheça um pouco da história do autor de 'A Selva'.

Descendente primogénito de uma família humilde de Ossela (José Eustáquio Ferreira de Castro e Maria Rosa Soares de Castro) Ferreira de Castro nasceu a 24 de maio de 1898, no lugar dos Salgueiros. 

Nesta altura em que já se comemorou os 100 anos de vida literária Ferreira de Castro, merece recordar-se que para além de tornar Ossela conhecida em todo o mundo, deu suficientes provas de que amou a terra onde nasceu. 

Obviamente não lhe foi dado escolher se pretendia ter Ossela por berço. Todavia, é facto sobejamente conhecido que lhe devotou calorosa estima e esteve indissoluvelmente ligado à nossa Ossela, rincão ímpar que tanto amou. Ao descrevê-la, Ferreira de Castro aponta-a sempre como um local paradisíaco, apreciação naturalmente “adocicada” de alguma benevolência, como é comum aos olhos de um filho da terra. Escreveu:”O vale de Ossela é uma série de rincões edéni cos onde a natureza veste as suas melhores galas, despretensiosamente, como se o fizesse por simples hábito”.

 

De bebé até aos quatro anos

Com uma vivência nem mais nem menos distinta que a maioria dos meninos de Ossela dessa altura o Zequinha (forma de tratamento habitual na aldeia) relativamente aos primeiros tempos da sua vida que medeiam entre o berço e o colo da mãe, até aos quatro anos de idade, ficou com as páginas da memória em branco : “São quatro anos iguais a uma noite escuríssima onde não é possível acender luz alguma “. 

Para Ferreira de Castro a realidade espiritual apenas começou a ter vida a partir de 1902. Da vida anterior a essa data, nem a mais leve lembrança... foi como se não existisse. Só por essa altura é que – palavras dele – “começo a povoar o museu da minha vida, a decorar a galeria das recordações”.

 Aos seis anos foi para a escola e as primeiras impressões são confessadas nestes termos: “Era de Inverno. Ia de chancas, friorento, enroupadito. Creio que foi minha mãe que me acompanhou até meio do caminho. Não me recordo bem. Mas lembro-me, nitidamente, da minha entrada na escola”.

 

A desilusão de emigrar

Depois do exame do 2º grau, começou a pensar ir para o Brasil. Provavelmente sem o saber Margarida, ao despertar-lhe amores incompreendidos, serviu de estímulo para fazer-se homem e emigrar: “Com o meu gesto, antecipava a idade e começava a viver o homem que eu desejava ser. Só um homem iria tão longe e Margarida, decerto, atentaria nisso. Sem ela eu não teria partido! Não teria tido coragem. Morreu sem o saber, talvez, mas foi ela, foi o desejo de que não me julgasse criança, foi esse meu primeiro amor, pulcro e ingénuo, que me deram forças para afrontar o monstro fabuloso, que me parecia, então, o Brasil”. 

E o dia da partida chegou. Menino de pouco mais de 12 anos, emigrante já, despediu-se da casa materna, rumo à grande aventura da sua vida. Nas suas memórias Ferreira de Castro evoca esse momento: “Madrugada ainda escura, tomámos eu e o Sr. Esteves o comboio do Vale do Vouga. Era a primeira vez que me servia de tal meio de transporte e tudo aquilo me causou admiração e orgulho de mim próprio”. 

E já no Porto de Leixões, quando o navio estava prestes a sair, ficou-lhe na memória a cena que jamais esqueceu: “O Sr. Esteves revelou, enfim, a sua comoção. Vi que fazia esforços para não chorar. Compreendi o motivo.- eu era tão pequeno ainda! Despedimo-nos. Ao acenar-lhe lá de baixo, do fundo da escada, surpreendi-lhe as primeiras lágrimas. Também eu chorava em silêncio. Embarquei para o escaler, que começava a afastar-se lentamente. O sr. Esteves ia perdendo em volume, diminuindo de estatura, lá em cima, na ponta do molhe, já longe. Acenei-lhe ainda. Depois, o bote atracou ao costado do Jerôme e eu subi a escada do navio. Tinha então, 12 anos, 7 meses e 14 dias... E nos porões do barco Jerôme atravessou o Atlântico... A 22 de Janeiro de 1911 chegou ao destino: Belém do Pará. Aí chegado encaminhou-se para a protecção de um conterrâneo comerciante que se havia comprometido com a família a dar-lhe trabalho, sustento, dormida.. mas o acolhimento foi frio, frio, frio... Compromisso apenas mantido por 28 dias, pois logo se apressou a livrar-se do encargo, despachando-o à guarde de um “coronel” dono do seringal “PARAÍSO”, na floresta amazónica, até – como disse – “o menino aprender a ser homem”.

 

Sobreviver às hostilidades

 Lançado numa espécie de desterro forçado, o menino emigrado de Ossela sofreu na pele e no espírito atormentado de criança, a mais feroz luta quotidiana de uma exploração da borracha, numa terra tão hostil que, como mais tarde haveria de escrever: “os próprios nativos tinham de ser gigantes para não sucumbirem “. 

Aí, junto às margens do rio Madeira, afluente do Amazonas, em Humaitá, já próximo da Colômbia, colheu seringa primeiramente e depois, por fragilidade física, ascendeu a empregado de armazém, posição de certo modo conseguida pela sua desenvolta e na altura, felizmente reconhecida, estatura intelectual. 

Nesse “Inferno Verde” vai formando a sua personalidade e ensaia as primeiras tentativas literárias. Um jornal de Pelotas (Rio Grande do Sul) publicou uma crónica da sua autoria, contava 13 anos. E sobre a sombra da sapotilheira escreve também o seu primeiro livro “Criminoso por Ambição”. 

No seu diário registou: “A ideia que levara ao Brasil o meu final de infância, que era de enriquecer, desaparecera completamente. Eu perdera o espírito de emigrante e só desejava ser escritor”.

Depois das suas primeiras obras de Infância e Juventude, o êxito de Ferreira de Castro começou, verdadeiramente, em 1928 com “Emigrantes” e em 1930 com “A Selva”. E seguiram-se outras e outras publicações importantes que elevaram a projeção do escritor conterrâneo, um dos 10 mais lidos do mundo, que em 1973, ofereceu a Oliveira de Azeméis, para figurar na biblioteca Ferreira de Castro, o manuscrito original de “Os Emigrantes”.  

Nesse ano, em setembro, entregou ao povo de Ossela, a biblioteca que mandou construir frente à casa onde nasceu, nos Salgueiros.

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